O Youtube está acabando com os canais de música

O Youtube está acabando com os canais de música

Nos últimos anos, o bloqueio de vídeos de canais de música no YouTube deixou de ser uma medida justa contra pirataria para se tornar uma barreira sufocante para criadores independentes. Educadores, jornalistas musicais e até canais de entrevistas estão vendo meses de trabalho desaparecerem em segundos, muitas vezes por causa de poucos segundos de áudio ou imagens.

O problema não é novo, mas tem se tornado insustentável. Rick Beato, criador com milhões de inscritos e respeitado por entrevistar artistas sobre suas próprias obras, tem visto seu trabalho ameaçado por strikes e reivindicações de gravadoras. No Brasil, Gastão Moreira, ex-VJ da MTV Brasil e um dos nomes mais importantes da crítica musical, teve um documentário de 47 minutos em homenagem a Ozzy Osbourne bloqueado por menos de um minuto de imagens de arquivo.

Não é apenas uma questão de monetização: é uma tentativa de silenciar conteúdos que preservam e discutem a música com seriedade.

Aliados tratados como inimigos

O que os criadores questionam é simples: por que quem divulga a música com qualidade, pesquisa e paixão, é tratado como um inimigo?

Canais como o de Gastão, que dedicam dias de pesquisa, roteiro e edição para lançar documentários sobre artistas, não estão pirateando nada. Estão prestando um serviço cultural, mantendo viva a memória de músicos, incentivando novos ouvintes a explorar catálogos, a comprar discos, a ir a shows.

Ainda assim, o sistema automático do YouTube, alimentado pelas gravadoras, não diferencia pirataria de jornalismo, de crítica ou de ensino musical.

O modelo atual é injusto

Hoje, quando um vídeo usa trechos musicais ou imagens, três coisas podem acontecer:

  • Bloqueio total: o vídeo é removido do ar, mesmo com uso mínimo.
  • Desmonetização: toda a receita vai para a gravadora, mesmo que o conteúdo seja majoritariamente original.
  • Strike: o canal corre risco de ser apagado após três ocorrências.

Esse modelo pune quem deveria ser aliado da indústria musical. Afinal, quem acompanha entrevistas de Rick Beato ou documentários de Gastão Moreira não está deixando de ouvir música. Está se apaixonando ainda mais por ela.

Uma possível solução: dividir para somar

O professor de canto Márcio Guerra levantou uma possível solução que merece reflexão: por que não dividir a monetização em 50/50 entre criadores e detentores dos direitos?

Assim, o uso de trechos musicais seria reconhecido como impulso de divulgação, e não como ameaça. Gravadoras ganhariam receita extra com vídeos independentes, e criadores poderiam continuar produzindo análises, documentários e críticas sem medo de perder todo o trabalho.

Um equilíbrio simples, mas vantajoso para ambos os lados.

O que está em risco

No fundo, a questão vai além do dinheiro. Está em jogo o direito de contar histórias, de preservar a memória de artistas e de alimentar a paixão pela música.

Se cada uso mínimo de um trecho sonoro ou visual continuar sendo motivo para bloqueio, o YouTube corre o risco de se transformar em uma plataforma estéril, repetitiva e sem profundidade cultural.

E aí fica a pergunta: quem realmente perde com isso?


As gravadoras, que deixam de lucrar por causa de 30 segundos de música? Ou os fãs, que perdem acesso a canais de música que poderiam transformar sua relação com a arte?

Aulas em canais de música podem não mais existir
Aulas em canais de música podem não mais existir

👉 O bloqueio de vídeos de canais música no YouTube não pode ser tratado apenas como “cumprimento da lei”. É preciso encarar como um problema cultural e criativo. Está na hora de gravadoras e a plataforma chegarem a um meio-termo que valorize quem produz e quem preserva a música — em vez de sufocar o debate.

Recomendo assistir os vídeos dos canais citados. Não se pode falar de música no Youtube, ensinar a tocar alguma música, contar alguma curiosidade sem se preocupar com desmonetização e strikes. Tanto conteúdo inadequado está na plataforma e nada é feito, mas o “problema” são apenas alguns segundos de uma música. Sinceramente, não dá pre entender!


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